Hoje o dia foi nostalgia.
Passei o tempo lembrando de minhas andanças
De Paris às 09:00h da manhã,
Dos boulevards,
Dos pombos,
Do calor infernal,
De Montmartre,
Do meu irmão Aristide,
Da minha escola de francês,
Do croissant amanteigado que derretia na boca,
Do meu cartão de metrô.
Paris arrancou-me um pedaço d'alma.
Ainda volto lá para buscar...


Eu já não escrevo nada que preste.
Não sei se é a idade,
Ou se são as mágoas que, tantas,
Bloqueiam-me o raciocínio.

Talvez eu já tenha passado da fase
Sentimental-mor, 2° geração...
As pombas já estão voltando,
E minha bagagem segue crescendo.

Eu vi o mundo,
E me alegrei, e me frustrei.
Sei que cada lugar tem seu crème brûlée
E suas mazelas.

Hoje sou um mix de pessimismo
Junto a uma boa dose de esperança.
Às vezes, a realidade parece confusa,
Mas apenas dou graças a Deus
Por me permitir estar aqui e poder ver.

Sou grata a Deus, sim, 
Ao Deus que vive dentro de mim -
Ele ri. 

Eu ando e vejo: é triste.
O calor nos rói os ossos,
Como se fosse punição;
Todo dia, rezo, e só peço
A Deus - se é que existe-
Que nos tenha piedade.
Somos tão falhos, tão mesquinhos,
Acomodados, auto-interessados;
Deus, oh, meu Deus!
Tende piedade de nossa pequenez,
Que acha normal ver gente dormindo
Na rua, sem sandália no pé.
Eu vejo, e é triste.
Piedade por nossa impotência,
Ou até mesmo falta de empatia.
Perdoai nossa ganância,
Que tira da boca a comida
Dos pobres desvalidos
Vítima de nossas mãos.
Eu vejo, e é triste.
Eu vejo, e choro baixinho.
No fim do túnel, havia uma luz :
Era eu, que renascia.
Achei a solução depois das algemas,
Fiz-me livre, voei!
Voltei com os dois pés no chão
E um bálsamo intenso, brilhante
Pulsando dentro do peito: vida.
Larguei o chumbo, e as feridas
Já são hoje cicatriz.
Quase caio, mas não quis.
Escalei o poço, fui feliz.
Levo em minhas entranhas uma alegria 
Que se não for Deus, eu não sei mais.
Eu sou luz que irradia, alumia
E transborda.
Eu sou gratidão e riso.
Eu sou o vento que se espalha 
E sai beijando as peles, a vida...!
Sou o sorriso atrasado,
Que demorou, mas agora aquece.
Tente...
Antes de criticar, subestimar, reclamar e culpabilizar,
Tente ser mulher.

Tente nascer e já ter uma série de censuras,
Tente ser desacreditada, subestimada
E injustiçada no mercado de trabalho.

Tente crescer ouvindo que você é inferior,
Fraquinha e incapaz.

Tente ser objetificada pela cultura de massa,
Tente passar pelas mudanças hormonais.

Tente sentir a dor da ovulação, das cólicas,
Dos partos, da endometriose.

Tente sentir a dor nos seios, 
A enxaqueca e a vertigem.

Tente entender o chumbo e os anseios
De não poder decidir sobre o próprio corpo.

Tente aprender a sorrir e ficar calada,
Tente aceitar que sempre estará errada.

Tente ser criança e já ser julgada,
Tente ter os sonhos minimizados.

Tente receber salários menores,
Tente ser tachada de vitimista.

Tente ser criada para ser um passatempo, 
Tente receber apelidos sexuais.

Tente sentir a pressão dos padrões de beleza,
Tente não ser abusada.
Tente não ser injustiçada...

Antes de apontar e humilhar,
Engula seu egoísmo,
Reconheça sua mesquinhez,
E tente ser mulher!

 
Já não sei se o amor existe,
Se nele creio;
Creio na dor que insiste, persiste
E preenche-me o seio.
Faz pouco, abri os olhos,
E vejo com nitidez: 
Dói - A frieza que me habita
É a dor maior, maldita 
Que os anos me deram.
É a vida tocando na vitrola...
Foi ela quem me deu as pistas
De que o amor é banal,
De que teu afago é esmola
No turbilhão de afeto em mim.
Vale profundo onde habitas,
E vez ou outra mandas sinal.
Eu respondo, e dói. 


*Poesia escrita a 29/01/2017 
Munique, Alemanha.



Minha avó não foi embora.
Minha avó não me deixou.
Disseram que foi ao encontro de nosso Senhor,
Mas é tudo mentira!
Eu tenho vivo o seu sorriso dentro de mim.
E sempre que a tristeza chega,
Pego o espelho, e me olho:
Não me sinto sozinha - 
Eu tenho os olhos de minha avó.