I


          O calor infernal da manhã começava a fazer suas vítimas e espalhar reclamações cotidianas. Aquele burburinho de sempre, assunto para se comentar nos ônibus com o cobrador ou com os passageiros que estivessem ao redor. Mas eu só conseguia pensar nas cenas da última noite, e o temor crescia dentro de mim, como se algo se encontrasse em minhas veias, impedindo minha respiração, e tapando-me a garganta. 
Abri o jornal, fiz meu café e joguei os pés em cima do sofá. Normal. Assim que folheei o periódico, no entanto, larguei a xícara e derrubei toda a bebida. Na última página, uma notícia escrita em letras tímidas me deu uma breve taquicardia: lia-se: "Tertúlio Viegas está morto". Como por instinto, alcancei o telefone e disquei seu número. Ninguém atendeu. Peguei a bolsa, e saí correndo para o seu apartamento, de onde havia chegado na última noite. Eu simplesmente não podia acreditar em uma morte tão prematura , aquela ideia não fazia o menor sentido. Isso poderia ter acontecido com qualquer pessoa, menos ele. Para mim, era ilógico imaginar que não mais o veria. 
Sentei-me no chão, em frente à porta de entrada, e comecei a remoer o que acontecera na noite passada. Tertúlio havia dito que iria viajar por um longo período, mostrou-me uma mala de dinheiro, e logo percebi que havia algo errado, aquela quantia era praticamente o que ele ganharia se trabalhasse durante toda a vida como jornalista no “Foco Diário”. Perguntei de onde vinham aqueles dólares, ele respondeu que não me preocupasse, e beijou-me a testa. “É só disso que preciso para resolver meus problemas. Logo, logo, tudo estará bem, e nós poderemos ter a vida que quisermos, pois um mundo novo estará pronto”, disse. Eu não aguentei a situação, que me pareceu um tanto falsa e até mesmo psicótica, e voltei para a minha casa.
Depois de passar algum tempo em seu prédio pela manhã, folheei o jornal outra vez, em busca de informação sobre o paradeiro do corpo. Constava na notícia que sua mãe havia levado seus restos para serem velados em outra cidade. Eu o conhecia havia 2 anos, e ele me informara que era órfão. Aquilo parecia mais e mais estranho, comecei a questionar a veracidade da publicação. Algo dentro de mim dizia que Tertúlio não havia morrido. Um cinza triste coloriu o dia, deixando as ruas ainda mais melancólicas. Abri minha sombrinha para me proteger do céu, que chorava, e me perguntei: onde está Tertúlio Viegas?







Hoje o dia foi nostalgia.
Passei o tempo lembrando de minhas andanças
De Paris às 09:00h da manhã,
Dos boulevards,
Dos pombos,
Do calor infernal,
De Montmartre,
Do meu irmão Aristide,
Da minha escola de francês,
Do croissant amanteigado que derretia na boca,
Do meu cartão de metrô.
Paris arrancou-me um pedaço d'alma.
Ainda volto lá para buscar...


Eu já não escrevo nada que preste.
Não sei se é a idade,
Ou se são as mágoas que, tantas,
Bloqueiam-me o raciocínio.

Talvez eu já tenha passado da fase
Sentimental-mor, 2° geração...
As pombas já estão voltando,
E minha bagagem segue crescendo.

Eu vi o mundo,
E me alegrei, e me frustrei.
Sei que cada lugar tem seu crème brûlée
E suas mazelas.

Hoje sou um mix de pessimismo
Junto a uma boa dose de esperança.
Às vezes, a realidade parece confusa,
Mas apenas dou graças a Deus
Por me permitir estar aqui e poder ver.

Sou grata a Deus, sim, 
Ao Deus que vive dentro de mim -
Ele ri. 

Eu ando e vejo: é triste.
O calor nos rói os ossos,
Como se fosse punição;
Todo dia, rezo, e só peço
A Deus - se é que existe-
Que nos tenha piedade.
Somos tão falhos, tão mesquinhos,
Acomodados, auto-interessados;
Deus, oh, meu Deus!
Tende piedade de nossa pequenez,
Que acha normal ver gente dormindo
Na rua, sem sandália no pé.
Eu vejo, e é triste.
Piedade por nossa impotência,
Ou até mesmo falta de empatia.
Perdoai nossa ganância,
Que tira da boca a comida
Dos pobres desvalidos
Vítima de nossas mãos.
Eu vejo, e é triste.
Eu vejo, e choro baixinho.
No fim do túnel, havia uma luz :
Era eu, que renascia.
Achei a solução depois das algemas,
Fiz-me livre, voei!
Voltei com os dois pés no chão
E um bálsamo intenso, brilhante
Pulsando dentro do peito: vida.
Larguei o chumbo, e as feridas
Já são hoje cicatriz.
Quase caio, mas não quis.
Escalei o poço, fui feliz.
Levo em minhas entranhas uma alegria 
Que se não for Deus, eu não sei mais.
Eu sou luz que irradia, alumia
E transborda.
Eu sou gratidão e riso.
Eu sou o vento que se espalha 
E sai beijando as peles, a vida...!
Sou o sorriso atrasado,
Que demorou, mas agora aquece.
Tente...
Antes de criticar, subestimar, reclamar e culpabilizar,
Tente ser mulher.

Tente nascer e já ter uma série de censuras,
Tente ser desacreditada, subestimada
E injustiçada no mercado de trabalho.

Tente crescer ouvindo que você é inferior,
Fraquinha e incapaz.

Tente ser objetificada pela cultura de massa,
Tente passar pelas mudanças hormonais.

Tente sentir a dor da ovulação, das cólicas,
Dos partos, da endometriose.

Tente sentir a dor nos seios, 
A enxaqueca e a vertigem.

Tente entender o chumbo e os anseios
De não poder decidir sobre o próprio corpo.

Tente aprender a sorrir e ficar calada,
Tente aceitar que sempre estará errada.

Tente ser criança e já ser julgada,
Tente ter os sonhos minimizados.

Tente receber salários menores,
Tente ser tachada de vitimista.

Tente ser criada para ser um passatempo, 
Tente receber apelidos sexuais.

Tente sentir a pressão dos padrões de beleza,
Tente não ser abusada.
Tente não ser injustiçada...

Antes de apontar e humilhar,
Engula seu egoísmo,
Reconheça sua mesquinhez,
E tente ser mulher!

 
Já não sei se o amor existe,
Se nele creio;
Creio na dor que insiste, persiste
E preenche-me o seio.
Faz pouco, abri os olhos,
E vejo com nitidez: 
Dói - A frieza que me habita
É a dor maior, maldita 
Que os anos me deram.
É a vida tocando na vitrola...
Foi ela quem me deu as pistas
De que o amor é banal,
De que teu afago é esmola
No turbilhão de afeto em mim.
Vale profundo onde habitas,
E vez ou outra mandas sinal.
Eu respondo, e dói. 


*Poesia escrita a 29/01/2017 
Munique, Alemanha.