Eu já não escrevo nada que preste.
Não sei se é a idade,
Ou se são as mágoas que, tantas,
Bloqueiam-me o raciocínio.

Talvez eu já tenha passado da fase
Sentimental-mor, 2° geração...
As pombas já estão voltando,
E minha bagagem segue crescendo.

Eu vi o mundo,
E me alegrei, e me frustrei.
Sei que cada lugar tem seu crème brûlée
E suas mazelas.

Hoje sou um mix de pessimismo
Junto a uma boa dose de esperança.
Às vezes, a realidade parece confusa,
Mas apenas dou graças a Deus
Por me permitir estar aqui e poder ver.

Sou grata a Deus, sim, 
Ao Deus que vive dentro de mim -
Ele ri. 

Eu ando e vejo: é triste.
O calor nos rói os ossos,
Como se fosse punição;
Todo dia, rezo, e só peço
A Deus - se é que existe-
Que nos tenha piedade.
Somos tão falhos, tão mesquinhos,
Acomodados, auto-interessados;
Deus, oh, meu Deus!
Tende piedade de nossa pequenez,
Que acha normal ver gente dormindo
Na rua, sem sandália no pé.
Eu vejo, e é triste.
Piedade por nossa impotência,
Ou até mesmo falta de empatia.
Perdoai nossa ganância,
Que tira da boca a comida
Dos pobres desvalidos
Vítima de nossas mãos.
Eu vejo, e é triste.
Eu vejo, e choro baixinho.
No fim do túnel, havia uma luz :
Era eu, que renascia.
Achei a solução depois das algemas,
Fiz-me livre, voei!
Voltei com os dois pés no chão
E um bálsamo intenso, brilhante
Pulsando dentro do peito: vida.
Larguei o chumbo, e as feridas
Já são hoje cicatriz.
Quase caio, mas não quis.
Escalei o poço, fui feliz.
Levo em minhas entranhas uma alegria 
Que se não for Deus, eu não sei mais.
Eu sou luz que irradia, alumia
E transborda.
Eu sou gratidão e riso.
Eu sou o vento que se espalha 
E sai beijando as peles, a vida...!
Sou o sorriso atrasado,
Que demorou, mas agora aquece.
Tente...
Antes de criticar, subestimar, reclamar e culpabilizar,
Tente ser mulher.

Tente nascer e já ter uma série de censuras,
Tente ser desacreditada, subestimada
E injustiçada no mercado de trabalho.

Tente crescer ouvindo que você é inferior,
Fraquinha e incapaz.

Tente ser objetificada pela cultura de massa,
Tente passar pelas mudanças hormonais.

Tente sentir a dor da ovulação, das cólicas,
Dos partos, da endometriose.

Tente sentir a dor nos seios, 
A enxaqueca e a vertigem.

Tente entender o chumbo e os anseios
De não poder decidir sobre o próprio corpo.

Tente aprender a sorrir e ficar calada,
Tente aceitar que sempre estará errada.

Tente ser criança e já ser julgada,
Tente ter os sonhos minimizados.

Tente receber salários menores,
Tente ser tachada de vitimista.

Tente ser criada para ser um passatempo, 
Tente receber apelidos sexuais.

Tente sentir a pressão dos padrões de beleza,
Tente não ser abusada.
Tente não ser injustiçada...

Antes de apontar e humilhar,
Engula seu egoísmo,
Reconheça sua mesquinhez,
E tente ser mulher!

 
Já não sei se o amor existe,
Se nele creio;
Creio na dor que insiste, persiste
E preenche-me o seio.
Faz pouco, abri os olhos,
E vejo com nitidez: 
Dói - A frieza que me habita
É a dor maior, maldita 
Que os anos me deram.
É a vida tocando na vitrola...
Foi ela quem me deu as pistas
De que o amor é banal,
De que teu afago é esmola
No turbilhão de afeto em mim.
Vale profundo onde habitas,
E vez ou outra mandas sinal.
Eu respondo, e dói. 


*Poesia escrita a 29/01/2017 
Munique, Alemanha.



Minha avó não foi embora.
Minha avó não me deixou.
Disseram que foi ao encontro de nosso Senhor,
Mas é tudo mentira!
Eu tenho vivo o seu sorriso dentro de mim.
E sempre que a tristeza chega,
Pego o espelho, e me olho:
Não me sinto sozinha - 
Eu tenho os olhos de minha avó.

Metade de mim é você que foi embora.
Metade de mim é o desejo de ir embora.
Metade de mim é amor.
A outra metade, pode jogar fora.
Metades múltiplas.
Matemática da psiqué. 
Linguagem da ausência.
Saudade de você.