A mulher sem nome

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        Diz-se que há muito, num pequeno vilarejo, havia uma moça sonhadora e um tanto peculiar. Seu modo de vida era simples e suas ambições, poucas. Vivia da venda dos peixes que pescava em sua singela jangada. Era querida por todos e estampava um sorriso sincero cada vez que cumprimentava alguém.
        Entretanto, mesmo sendo conhecida por todos de seu povoado, não se sabia seu nome, tampouco sabia-se quem eram seus pais, ou ainda, de onde viera. Era pouco vista pela população, que só lhe punha os olhos pela manhã, quando saía para pescar e vender seus produtos. 
        Quando perguntavam à pescadora como se chamava, mudava os rumos da conversa de maneira inteligente e ardilosa, de modo tão articulado que desconfianças oportunas não eram levantadas. Mas ora, era estranho o fato de todos lhe terem afeição sem que soubessem seu nome, afinal, deve-se conhecer algo antes de lhe atribuir sentimentos. No entanto, estranheza não existia quando o assunto era a moça . Todos conheciam sua fisionomia, seu sorriso e bom coração, e naquele contexto, bastava. 
         A mulher sem nome era morena como um caramelo, tinha longos cabelos encaracolados  e era dona de um olhar tão verde, mas tão verde, que muitos rapazes passavam horas a fio a admirá-la. Mesmo com uma legião de admiradores e galanteios, não tinha ninguém, era misteriosa como o ciclo das marés. Todos, miraculosamente, sentiam liberdade e candura ao se aproximar dela. 
        Eis que chegou ao vilarejo uma comitiva de homens vindos de longe, que se diziam sábios, com habilidades sobrenaturais. Numa manhã de verão intenso, a pescadora montou sua barraca no mercado portenho, quando um dos viajantes fitou seus olhos e, automaticamente, perdeu fala, movimentos e qualquer pensamento que porventura poderia surgir. Apenas apontou na direção da moça e, atordoado, gritou: 
         -Não vejo passado nessa mulher, nem futuro, nem presente. Ela não tem vida! 
         Todos fizeram pouco do ancião, riram e o taxaram de louco. No entanto, surgiu uma nebulosa na mente de um rapaz, que apaixonou-se pela jovem. No fim da feira do porto, aproximou-se dela e, alimentado pela curiosidade natural da paixão, perguntou-lhe o nome. Nesse momento, os olhos da mulher dilataram-se, seu semblante ganhou um ar assustado, agoniado. Sua pele, que era morena, empalideceu. E empalideceu até perder a cor, tornou-se branca como neve. Surgiu um feixe de luz surreal, uma corrente de ar içou-a e subiu ao céu. Bem no alto, permaneceu. Tornou-se redonda, refletia a luz do sol e era dona da noite. Rainha das trevas era ela. Ela era a lua. 

Natália Monte

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A paixão pela escrita sempre foi característica de Natália Monte: alagoana de gênio forte, começou a escrever quando criança, e o envolvimento com as letras só aumentou com o passar dos anos. Escreve o que pensa, o que vê e o que sente. Descreve através desta página a maneira singular com a qual vê o mundo, sua proposta é justamente expor tal universo particular, ou melhor, seu "reino". E como em todo conto infantil os reis são a autoridade máxima, a autora brinca: " Um dia, fui rei!". Rei de suas ideias, aspirações, e do colorido único que só sua imaginação tem.

Um comentário:

  1. Minha querida, que conto belo. Arrancou-me sorrisos. Fico feliz em ter iniado nos contos. Gostei e espero ansiosa por mais escritos!

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