Tristes contos de Tertúlio - parte I

by 23:03 0 comentários
                                                                             I


          O calor infernal da manhã começava a fazer suas vítimas e espalhar reclamações cotidianas. Aquele burburinho de sempre, assunto para se comentar nos ônibus com o cobrador ou com os passageiros que estivessem ao redor. Mas eu só conseguia pensar nas cenas da última noite, e o temor crescia dentro de mim, como se algo se encontrasse em minhas veias, impedindo minha respiração, e tapando-me a garganta. 
Abri o jornal, fiz meu café e joguei os pés em cima do sofá. Normal. Assim que folheei o periódico, no entanto, larguei a xícara e derrubei toda a bebida. Na última página, uma notícia escrita em letras tímidas me deu uma breve taquicardia. Lia-se: "Tertúlio Viegas está morto". Como por instinto, alcancei o telefone e disquei seu número. Ninguém atendeu. Peguei a bolsa, e saí correndo para o seu apartamento, de onde havia chegado na última noite. Eu simplesmente não podia acreditar em uma morte tão prematura , aquela ideia não fazia o menor sentido. Isso poderia ter acontecido com qualquer pessoa, menos ele. Para mim, era ilógico imaginar que não mais o veria. 
Sentei-me no chão, em frente à porta de entrada, e comecei a remoer o que acontecera na noite passada. Tertúlio havia dito que iria viajar por um longo período, mostrou-me uma mala de dinheiro, e logo percebi que havia algo errado, aquela quantia era praticamente o que ele ganharia se trabalhasse durante toda a vida como jornalista no “Foco Diário”. Perguntei de onde vinham aqueles dólares, ele respondeu que não me preocupasse, e beijou-me a testa. “É só disso que preciso para resolver meus problemas. Logo, logo, tudo estará bem, e nós poderemos ter a vida que quisermos, pois um mundo novo estará pronto”, disse. Eu não aguentei a situação, que me pareceu um tanto falsa e até mesmo psicótica, e voltei para a minha casa.
Depois de passar algum tempo em seu prédio pela manhã, folheei o jornal outra vez, em busca de informação sobre o paradeiro do corpo. Constava na notícia que sua mãe havia levado seus restos para serem velados em outra cidade. Eu o conhecia havia 2 anos, e ele me informara que era órfão. Aquilo parecia mais e mais estranho, comecei a questionar a veracidade da publicação. Algo dentro de mim dizia que Tertúlio não havia morrido. Um cinza triste coloriu o dia, deixando as ruas ainda mais melancólicas. Abri minha sombrinha para me proteger do céu, que chorava, e me perguntei: onde está Tertúlio Viegas?



Natália Monte

Developer

A paixão pela escrita sempre foi característica de Natália Monte: alagoana de gênio forte, começou a escrever quando criança, e o envolvimento com as letras só aumentou com o passar dos anos. Escreve o que pensa, o que vê e o que sente. Descreve através desta página a maneira singular com a qual vê o mundo, sua proposta é justamente expor tal universo particular, ou melhor, seu "reino". E como em todo conto infantil os reis são a autoridade máxima, a autora brinca: " Um dia, fui rei!". Rei de suas ideias, aspirações, e do colorido único que só sua imaginação tem.

0 comentários:

Postar um comentário